
Compreendo como você se sente ao ouvir um “não”, não é fácil mesmo. Os limites parecem que nos tolhem, nos cerceiam.
Mas os limites não são obstáculos à liberdade, são imprescindíveis na nossa vida. Saber falar um não é um ato corajoso dos nossos pais e muito nos ajuda na formação dos nossos próprios valores.
Jovens que foram criados sem limites, que tiveram uma educação permissiva ou omissa, independente da classe social que ocupam, são os que mais têm problemas de adaptação e convivência, são os que mais se envolvem com álcool, drogas e cometem atos criminosos.
Crianças e Jovens que pouco ouviram um “não”, têm dificuldade em ouvi-lo mais tarde. Não aprenderam a ter tolerância à frustração. Um pequeno não se transforma num imenso gerador de dor, angústia e pode desencadear reações intempestivas e exacerbadas.
Quando o bebê nasce e chora querendo mamar, quer ser atendido prontamente. Não percebe que ele e a mãe são entidades distintas.
Até que perceba isto leva tempo, sofrimento e dor, é o primeiro sofrimento emocional da gente, é o primeiro “não” sabia?
O bebê é só ego e instinto, é o eu quero agora e já.
Crescendo um pouco, lá pela 1a infância, convivendo com um irmão ou na escolinha, a percepção das coisas a sua volta vai se intensificando. A criança vai aprendendo a enxergar o outro e a sociabilizar-se. Acredite, não há tolerância à frustração ainda, ela vai se formando à medida que se aprende a lidar com a angústia gerada por não ter seus desejos atendidos imediatamente, pois ela não é a única a ser atendida e também pode ser que nem seja.
Vai fazendo rudimentares julgamentos e exercitando as emoções, através do conflito aprende que nem tudo acontece conforme a sua pretensão. Vai se adaptando a realidade e percebendo as diferenças entre idealizações e realidade. Vai elaborando a dor, aprendendo a conviver com as frustrações, descobrindo seu jeito de lidar com elas. Se este exercício não acontecer, nem bem cedo, nem mais tarde, inviabilizará a possibilidade de aprender a lidar com o sofrimento e a dor no futuro.
Se hoje foi doloroso e cruel ouvir um “não”, pense que este “não”, muito ajudará a lidar com os inúmeros “não” que você ainda vai ouvir pela frente, fará julgamentos mais flexíveis, valorizará mais suas escolhas e saberá o quanto custa cada uma delas muito melhor do que ter tudo de mão beijada”.
Ana Lucchi
psicóloga