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Inclusão social

Inclusão na escola: um processo que só começou

A questão da inclusão de alunos com necessidades educativas especiais nas escolas regulares vem ganhando espaço em diversos âmbitos de discussão, notadamente nos meios educacionais. Muita coisa já foi feita neste sentido, e podemos dizer que a situação destas crianças hoje em dia é bastante diferente daquela em que se encontravam há cinco ou dez anos atrás. São muitas as crianças e jovens que só a pouco puderam usufruir do direito que lhes é garantido por lei, de serem “estudantes”, assim como todas as outras. Mais que importante, esta “abertura de portas” (que só aconteceu depois de muita luta e discussão por parte de diversos setores da sociedade) transformou para sempre o panorama da educação no Brasil, mas temos que considerar este um primeiro passo de um longo percurso para a transformação efetiva das escolas.

Temos estas crianças na escola. E agora?

Se o que estamos almejando é o direito de todos à educação, não podemos nos contentar com o fato de as crianças estarem matriculadas e freqüentando as escolas. O compromisso do educador vai além do acolhimento. Educar é, antes de tudo, ensinar nossos alunos, quaisquer que sejam, e prepará-los para uma vida adulta digna e autônoma. Assim, é a vez das escolas se preocuparem e se prepararem para educar de fato estes alunos; e é neste momento que se coloca o maior de todos os desafios: como ensinar estas crianças que apresentam limitações de todas as ordens? Estamos preparados para isso? Bem, a primeira coisa que vai determinar nosso sucesso com a educação inclusiva é crer que todas as crianças podem aprender. Muitas delas não vão aprender no mesmo ritmo, nem as mesmas coisas e nem ao mesmo tempo, mas se não acreditarmos que a escola pode fazer a diferença na vida delas, será muito difícil conseguir algum sucesso nesta empreitada. Em segundo lugar, é importante considerar o fato de que, nossa formação só nos mostrou como ensinar a grande maioria das crianças, aquelas que aprendem a partir das intervenções que são comuns. Assim, ao nos depararmos com um aluno que não responde às nossas investidas da forma que esperamos da maioria, não sabemos o que fazer, e é aí que se coloca uma de nossas maiores preocupações: a preparação necessária para atender estes alunos. Embora seja de extrema importância um trabalho de formação e preparação nas escolas (que pode acontecer através da leitura de textos, do contato com as famílias, especialistas, e interlocução entre os docentes), muitas vezes nossa preparação acontece na prática. É no momento em que nos depararmos com estas crianças na sala de aula que surgem as nossas maiores dúvidas, que vão ser nossos pontos de partida para a reflexão e a construção de uma prática inclusiva. Vale dizer também que, assim como as outras, as crianças com necessidades educativas especiais são todas elas diferentes entre si, e isso nos traz uma certeza: não existem fórmulas para trabalhar com elas, assim como não existem também para trabalhar com as outras. O mais importante aqui é contar com os conhecimentos e experiências que construímos ao longo de nossos percursos profissionais. São estes os nossas maiores aliados. Sair em busca de melhor maneira de ensinar estas crianças, contando com nossos próprios recursos é uma tarefa que, com toda certeza renderá frutos para todos, notadamente para os outros alunos, uma vez que uma nova forma de ensinar pode ser vantajosa para todos. Trata-se do que chamamos de adaptação curricular, ou seja: uma transformação individualizada no currículo regular, que promove o acesso de cada um ao ensino, e possibilita a aprendizagem de todos a partir das possibilidades que apresentam. Vale dizer também que, se o ensino para estas crianças se torna diferente em alguns aspectos, assim também deve ser a avaliação, que também deve encontrar seu ponto de partida nestes princípios.

Outro desafio que nos espera nesta empreitada diz respeito ao espaço que ocuparão e ao tipo de relação que estas crianças vão estabelecer com a comunidade escolar, composta principalmente por seus colegas e professores. Temos aí, um importante princípio norteador que nos ajudará a responder esta questão: todos terão seus direitos iguais, acompanhados do atendimento às necessidades individuais. Não se trata de igualdade, uma vez que os alunos não são iguais, mas muito diferentes entre si, e assim, as necessidades que apresentam também serão diferentes. O fato de um aluno contar com uma atenção por parte do professor, muitas vezes bastante individualizada, não significa que está usufruindo de um privilégio, mas de um direito, e é importante garantir a todos que também terão suas necessidades atendidas, na medida em que forem apresentadas.

Um último ponto que vale a pena ser abordado é a questão da responsabilidade sobre estes alunos: nenhuma escola se transforma se não contar com o compromisso de toda a sua comunidade. Todos os alunos são responsabilidade de todos, e a inclusão não acontece dentro de uma ou duas salas de aula. A escola se torna inclusiva a partir do momento em que todas as pessoas que dela fazem parte assumem este compromisso e, juntos, constroem um ambiente inclusivo. E isso é trabalho para uma vida inteira.

Por Maria da Paz Castro (Gunga)Pedagoga da Escola da Vila


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