Por Sandra Felicidade Lopes da Silva
É muito comum que as pessoas me perguntem se “Felicidade” é nome ou sobrenome. Explico brevemente que é nome, e que “Felicidade” era o nome da minha avó paterna. Meu pai, para homenagear sua mãe, colocou o “Felicidade” como segundo nome nas filhas. Não conheci minha avó e sei bem pouco sobre ela. Sei que foi uma nordestina que criou os filhos sozinha, no sertão de Pernambuco. Isso não é pouca coisa. Ela deve ter sido uma pessoa especial, porque meu pai sempre falou dela com orgulho. Mas eu imagino que mais especiais ainda devem ter sido seus pais, pois mesmo vivendo na dura realidade do sertão nordestino, tiveram inspiração para chamar a filha de Felicidade.
Participei de um seminário com o Lama Padma Santen1, cujo tema era Felicidade. Ele comentava a tendência, inclusive no meio científico, de se buscar uma explicação para o sentimento de felicidade sempre como decorrente de fatores externos. Os cientistas sociais vinculam esse sentimento a fatores sócioambientais favoráveis, como reconhecimento, prestígio, pertença etc. Nas neurociências, as explicações vêm de fatores genéticos que predispõem à felicidade. Sorte de quem herdou o gene da felicidade… A ciência está bastante empenhada em explicar a origem da felicidade ‐ e patentear a fórmula, claro.
O Lama brincou que se pessoas genuinamente felizes fossem encontradas no interior de uma humilde casinha, sentadas ao redor de uma mesa, tendo somente um bule de café e um bolo de fubá ‐ os cientistas imediatamente iriam até lá, colher uma amostra do bolo para identificar que componente do fubá seria o responsável pela felicidade.
Finalmente, pessoas felizes revelam uma postura do tipo “não vim ao mundo a passeio!”. São pessoas que têm um propósito claro. São movidas por um sentido de missão. Algumas ficam até bem famosas, como a Madre Tereza de Calcutá e o Dalai Lama. Mas mesmo que seu currículo humanitário não seja suficiente para uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz, não desanime. É muito revigorante saber que sua existência se destina a tornar o mundo um lugar melhor, mesmo que seja a partir da sua família, do seu casamento ou do seu ambiente de trabalho.
O fato é que a felicidade é encontrada nos lugares mais improváveis, justamente porque ela não está vinculada a circunstâncias externas e passageiras. Pode ser encontrada até mesmo naquela casinha do bolo de fubá ou no sertão nordestino da minha avó.
1 O Lama Padma Santen é físico e dirige o Instituto Caminho do Meio – Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB) em Viamão/RS. Além de inteligentíssimo, tem um ótimo senso de humor. Um seminário com ele é felicidade garantida.
Sandra Felicidade é psicóloga e atua na área de desenvolvimento de pessoas. É palestrante, consultora e psicoterapeuta de abordagem sistêmica. Contatos: www.sandrafelicidade.com.br ou sandra.happiness@terra.com.br